Linha do Tempo: Os marcos do maior acidente radiológico do mundo em Goiânia
A tragédia do Césio-137, ocorrida em setembro de 1987, permanece como uma cicatriz aberta na história de Goiás. Classificado como nível 5 (em uma escala de 1 a 7) pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), o episódio mobilizou a Agência Internacional de Energia Atômica e mudou os protocolos de segurança nuclear no planeta.
Com a recente repercussão da série “Emergência Radioativa” (Netflix), a cronologia dos fatos revela como a curiosidade e a falta de informação transformaram 19 gramas de pó em 6 mil toneladas de lixo radioativo.
Setembro de 1987: Do Altar ao Caos
- 13 de Setembro: Dois catadores de papel retiram um aparelho de radioterapia das ruínas do antigo Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), no Centro, para vender o chumbo. Eles rompem a cápsula protetora.
- 18 de Setembro: O dono de um ferro-velho, Devair Ferreira, compra a peça. À noite, ele se encanta com um brilho azul intenso vindo do pó (Cloreto de Césio). Nos dias seguintes, ele distribui fragmentos da substância para amigos e familiares como se fosse algo mágico.
- 28 de Setembro: Após dezenas de pessoas apresentarem vômitos e tonturas, Maria Gabriela, esposa de Devair, suspeita do pó. Ela coloca a cápsula em uma sacola e a leva, de ônibus, até a Vigilância Sanitária. Seu ato corajoso evitou uma contaminação ainda maior.
- 29 de Setembro: O físico Walter Mendes chega ao local com um medidor de radiação. O aparelho “estoura” a escala imediatamente. O acidente é oficialmente notificado e a área isolada.
Outubro de 1987: O Mês do Luto e da Triagem
Ao longo de outubro, o Estádio Olímpico transformou-se em um centro de triagem de guerra. Mais de 112 mil pessoas passaram por detectores de radiação.
- 23 de Outubro: Ocorrem as duas primeiras mortes: a menina Leide das Neves (6 anos), símbolo da tragédia, e sua tia Maria Gabriela. Leide ingeriu o pó ao lanchar após brincar com a substância.
- 27 e 28 de Outubro: Morrem os funcionários do ferro-velho Israel Batista (20 anos) e Admilson Alves (18 anos).
- Sepultamentos: As quatro vítimas foram enterradas em caixões de chumbo pesando centenas de quilos, sob protestos de moradores que temiam a contaminação do cemitério.
A Descontaminação e o Depósito Final
O processo de limpeza de Goiânia durou até dezembro de 1987, resultando na demolição de 7 casas e na evacuação de dezenas de imóveis.
- 1988: O relatório final é apresentado ao Congresso, marcando o fim da fase emergencial.
- 1991 – 1997: Inicia-se a construção do depósito definitivo em Abadia de Goiás.
- 5 de Junho de 1997: É inaugurado o Depósito de Rejeitos Radioativos de Abadia de Goiás, dentro do Parque Estadual Telma Ortegal. O local abriga as 6 mil toneladas de lixo concretado em duas montanhas artificiais.
O Legado Hoje
Atualmente, o Centro de Assistência aos Radioacidentados (CARA), em Goiânia, monitora a saúde de 129 vítimas diretas e seus descendentes. Especialistas alertam que, embora a radiação tenha diminuído, a área de Abadia de Goiás só será considerada totalmente segura daqui a 200 anos.
A história do Césio-137 é um lembrete constante da necessidade de fiscalização rigorosa de materiais hospitalares e do perigo invisível que a radiação representa quando fora de controle.



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