Brilho Azul do Césio-137: Entenda o fenômeno físico que fascinou e vitimou Goiânia
O mistério por trás da luz azul que encantou os moradores de Goiânia em 1987, dando início ao maior desastre radiológico do mundo fora de usinas nucleares, continua sendo um tema de estudo e alerta. Embora o Césio-137 tenha ficado famoso por seu brilho intenso no escuro, especialistas explicam que o elemento, por si só, não emite luz visível.
Em entrevista ao portal g1, o professor de química Elias Yuki Ionashiro, da Universidade Federal de Goiás (UFG), detalhou que a luminosidade azulada é, na verdade, uma reação física complexa entre a radiação e o ambiente.
O Fenômeno: Efeito Cherenkov
De acordo com o professor, o brilho azul é resultado do chamado Efeito Cherenkov. O fenômeno ocorre quando partículas radioativas viajam através de um meio (como a umidade do ar ou a água) a uma velocidade superior à da luz naquele meio específico.
- A Analogia do Som: Assim como um avião que ultrapassa a barreira do som gera um estrondo, a radiação do césio, ao “correr” mais rápido que a luz no ar úmido de Goiânia, gerou uma onda de choque luminosa de cor azul-cobalto.
- Forma de Sal: No acidente, o césio estava na forma de cloreto de césio, um pó granulado muito parecido com o sal de cozinha. Essa semelhança física facilitou a absorção pelo organismo das vítimas, que manipularam o material sem saber dos riscos.
Radiação vs. Contaminação: O Perigo Invisível
O especialista da UFG destaca que é fundamental diferenciar os dois conceitos para entender a gravidade do ocorrido em 1987:
| Conceito | Descrição no Caso de Goiânia |
| Radiação | É a energia emitida pelo elemento. Pode causar queimaduras graves e alterações no DNA. |
| Contaminação | Ocorre quando o material radioativo sai do controle e se espalha em roupas, mãos e objetos, emitindo radiação continuamente. |
As Vítimas do Fascínio pela Luz
O brilho azul foi o principal vetor da tragédia. Devair Ferreira, dono do ferro-velho onde a cápsula foi aberta, ficou fascinado pela luminosidade e distribuiu fragmentos do pó para amigos e familiares. O contato direto levou à morte das quatro primeiras vítimas em outubro de 1987:
- Leide das Neves (6 anos): Ingeriu o pó radioativo durante o lanche. Tornou-se o símbolo da tragédia e foi enterrada em um caixão de chumbo de 700 kg.
- Maria Gabriela Ferreira (37 anos): Esposa de Devair. Foi a responsável por levar a cápsula até a Vigilância Sanitária em uma sacola de plástico, evitando uma contaminação ainda maior.
- Israel Batista (20 anos) e Admilson Alves (18 anos): Funcionários do ferro-velho que trabalharam diretamente na abertura da fonte.
Memória e Educação em 2026
Quase 40 anos após o desastre, o tema voltou ao debate público com o lançamento da minissérie Emergência Radioativa (Netflix). Para evitar que a história se repita, a UFG planeja criar uma disciplina específica sobre o Césio-137 no curso de Química.
Enquanto isso, as 6 mil toneladas de rejeitos radioativos permanecem armazenadas em depósitos de segurança em Abadia de Goiás. Estima-se que o material continuará emitindo radiação perigosa por pelo menos mais 200 anos, exigindo monitoramento constante das autoridades nucleares brasileiras.



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